Método prevê riscos graves da Covid

Atualizado em 3/11/2020

Uma metodologia desenvolvida por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) permite prever, com um simples exame de sangue, o risco de um paciente diagnosticado com Covid-19 vir a desenvolver complicações e precisar ser hospitalizado.
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A técnica consiste em analisar o conjunto de proteínas presentes no plasma sanguíneo para descobrir se corresponde a um padrão classificado pelos autores como de “alto risco”. Os detalhes do trabalho, que contou com apoio da Fapesp, foram divulgados na plataforma medRxiv, em artigo ainda sem revisão por pares.
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“Nós identificamos um grupo de moléculas cujo nível está significativamente mais elevado no plasma de pacientes com a forma grave da Covid-19, com destaque para as proteínas SAA1 [proteína amiloide A1 sérica] e a SAA2 [proteína amiloide A2 sérica]. Nossa proposta é que essa análise do plasma seja feita assim que a pessoa tiver o diagnóstico confirmado pelo teste de RT-PCR. Caso ela apresente o perfil de alto risco, o médico já poderia adotar uma conduta mais direcionada”, diz à Agência Fapesp Giuseppe Palmisano, professor do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB-USP) e coordenador do projeto.
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O pesquisador ressalta, porém, que ainda é preciso confirmar o poder prognóstico do método e sua utilidade clínica em estudos com grupos maiores de pacientes do Brasil e do Exterior.
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As conclusões apresentadas no artigo estão baseadas em análises feitas com amostras de 117 pacientes com Covid-19 atendidos no Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina (FM) da USP, graças a uma colaboração com os médicos Rinaldo Focaccia Siciliano e José Carlos Nicolau.
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Os voluntários que tiveram amostras incluídas no estudo foram pareados por idade, sexo e comorbidades (doenças associadas, como diabetes, obesidade ou hipertensão), para que os resultados fossem comparáveis.
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Para identificar o conjunto de proteínas existente nas amostras, os pesquisadores usaram um espectrômetro de massas do tipo Maldi-Tof (sigla em inglês para tempo de voo por ionização e dessorção a laser assistida por matriz) – equipamento relativamente comum nos hospitais brasileiros e bastante usado em análises de microbiologia. Com ele é possível identificar, por exemplo, a presença de fungos ou bactérias em amostras de sangue ou de urina, além de determinar as espécies dos microrganismos.
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“Trata-se de uma tecnologia barata e que já está presente na clínica. Poderia, portanto, ter rápida aplicação no prognóstico da Covid-19”, avalia Palmisano. “Com esse equipamento é possível fazer a análise do perfil de proteínas com apenas 1 microlitro de plasma e o resultado sairia em menos de meia hora. Além disso, é possível automatizar o processo e avaliar amostras de vários indivíduos ao mesmo tempo.”
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Seis algoritmos determinam padrão
Seis diferentes algoritmos de aprendizagem de máquinas foram usados para determinar o padrão de proteínas plasmáticas correspondente a pacientes de alto e de baixo risco. Os pesquisadores usaram 88 das 117 amostras para treinar o software a identificar quais delas pertenciam a indivíduos hospitalizados (alto risco) e quais eram de pessoas que apresentavam apenas sintomas leves no momento da coleta (baixo risco).
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As outras 29 amostras foram usadas em um teste cego para validar o método, ou seja, para confirmar se o programa estava fazendo a avaliação corretamente. Ao final, a metodologia apresentou 93,1% de acurácia (probabilidade de oferecer um resultado correto), 87,5% de sensibilidade (probabilidade de um resultado positivo verdadeiro) e 100% de especificidade (probabilidade de um resultado negativo verdadeiro).
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Escrito por: Agência Fapesp

Fonte: Correio Popular