Pandemia pode causar novos rompimentos para crianças acolhidas

Atualizado em 25/7/2020

Cumprindo o isolamento em abrigos, crianças e adolescentes podem perder vínculos emocionais importantes. Instituições se mobilizam para evitar este cenário

É difícil encontrar alguém que não tenha sofrido alguma mudança no cotidiano com o avanço da Covid-19. Para crianças e adolescentes em situação de acolhimento institucional, essas mudanças foram drásticas e, em alguns casos, trouxeram novas rupturas.

De acordo com dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), divulgados por meio do Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento (SNA), 32,5 mil crianças e adolescentes estão vivendo em casas de acolhimento e instituições públicas no país. Desse total, 5,2 mil estão disponíveis para adoção e 3 mil estão em processo de adoção.

Apesar de não haver nenhum registro de contaminação em instituições de acolhimento, desde o início da pandemia juízes e o CNJ desenvolveram diretrizes que permitissem a retirada destes jovens, com a aceleração de processos de adoção perto da finalização e a transferência para famílias acolhedoras ou para o convívio com os padrinhos afetivos.

“Uma das principais preocupações foi retirar essas crianças e jovens antes do ápice da pandemia. Pensar em estratégias para diminuir o número de crianças de forma segura, mas buscando evitar adoções frustradas. Eles já passaram por uma ruptura, ir para a casa do adotante e não dar certo é outro trauma para elas. Só tiramos do acolhimento se for o melhor, principalmente no atual cenário”, esclarece o juiz titular da Vara da Infância e Juventude de Guarulhos (SP) e assessor da Corregedoria Geral da Justiça de São Paulo Iberê de Castro.

Contudo, a maioria segue nas casas de acolhimento apesar do caráter coletivo e a rotatividade de cuidadores, que podem aumentar o risco de contaminação. Essa preocupação fez parte do planejamento do Serviço de Acolhimento Institucional para Crianças e Adolescentes (SAICA) São Mateus II, assim que as medidas de isolamento foram anunciadas no Estado de São Paulo.

Danila Yamashiro, de 42 anos, é pedagoga e atua há 15 anos na coordenação do abrigo. Atualmente, 14 adolescentes e uma criança formam o quadro de acolhimento na instituição. “Eles estão bem agitados. Eles perderam a rotina externa e os círculos que frequentavam de uma forma brusca. Tentamos colocar atividades diferenciadas, como educação física, para que eles continuem ativos”, conta.

Uma das atividades propostas foi criar um quadro com fotos dos voluntários, padrinhos e amigos com quem eles não vão poder conviver presencialmente no momento. Para garantir que o vínculo continuasse, apesar da pandemia, foi realizada uma campanha para conseguir computadores e tablets para os jovens que ainda não tinham equipamentos eletrônicos.

“Nosso objetivo era não deixar que esses laços se rompessem. Todos podem fazer chamadas de vídeos ou ligar para quem precisam, seja o padrinho ou um amigo da escola. Romper essa ligação seria algo cruel. É desta forma também que muitos seguem com o atendimento psicológico e terapêutico”, revela.

A saúde mental das crianças e dos adolescentes em acolhimento merece atenção em meio ao momento único que o mundo está vivendo. “Tudo ainda é tão incerto e angustiante para essas crianças. De repente tiverem atividades e convívios interrompidos e não sabem quando vão ver essas pessoas de novo. Promover momentos de conversa e escuta para fazer com que elas falem dos medos é essencial”, argumenta Lara Naddeo, psicóloga do Instituto Fazendo História.

Para Peterson Rodrigues, presidente da ELO – Organização de Apoio à Adoção, uma associação civil que atua no Rio Grande do Sul oferecendo grupos de apoio para a adoção, pós-adoção e apadrinhamento afetivo, o fortalecimento dos vínculos é fundamental neste momento.

“Eles perderam todas as formas de saída do abrigo com a suspensão das aulas e das visitas. É fundamental ter um trabalho muito forte para manter esses vínculos. Não pode haver esse rompimento. Mesmo se não for intencional, quando não se busca outra maneira de estar presente, o vínculo se rompe”, argumenta.

Ele reforça que a criança e o adolescente devem sempre ser ouvidos em todas as ações do acolhimento, incluindo quando houver ações de transferência para outros programas, como o Família acolhedora ou na própria adoção.

“Sair do acolhimento não deve ser uma solução para a instituição, mas para a criança. Existem pessoas que querem adotar um bebê, mas aceitam crianças mais velhas por chegarem mais rápido. E não pode ser assim. O fato de ela estar no abrigo envolveu muito sofrimento e diversos cortes de vínculos”, aponta Peterson.

Alguns dos adolescentes do SAICA São Mateus II estão desde a infância na casa, e agora assumiram mais responsabilidades para auxiliar no combate ao novo coronavírus. “Eles usam o álcool em gel, se cuidam e ajudam com a higienização da casa. Muitos começaram a cozinhar neste período, e um dos meninos se animou com o empreendedorismo e quer vender bolos de pote”.

Para garantir o bem-estar e a saúde dos jovens acolhidos, eles e os 22 funcionários/educadores do abrigo realizaram testes para a Covid-19. Todos testaram negativo.

Além do risco da perda de vínculos, os abrigos e casas-lares precisam se adaptar a uma nova rotina educacional. O ensino a distância se mostrou um desafio ainda no início da quarentena. Agora, educadores e jovens parecem estar habituados.

“No começo, eles tinham muita dificuldade com algumas matérias e atividades. Nos mobilizados para buscar parcerias e voluntários que pudessem dar assistência online aos adolescentes, principalmente nas aulas de matemática. E nós [educadores] vamos auxiliando e monitorando a entrega das atividades”, esclarece Danila.
.

O papel do acolhimento familiar

Uma das soluções encontradas pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) para evitar a aglomeração de muitas crianças e adolescentes em casas-lares ou abrigos foi estimular a adesão ao programa de famílias acolhedoras.

Apesar de constar no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) como a forma de acolhimento indicada em prevalência ao institucional, a prática ainda é pouco divulgada no país. Segundo dados do CNJ, menos de 4% das crianças abrigadas estão em famílias acolhedoras. Em São Paulo, por exemplo, a prefeitura tem parcerias com instituições que desenvolvem o programa, com a seleção e o treinamento das famílias.

Renato Zanetti, de 47 anos, recebeu a sua segunda bebê dentro do programa de Família Acolhedora, promovido pelo Instituto Fazendo História, poucas semanas antes no inicio da quarentena na cidade de São Paulo.

“É muito difícil promover um acolhimento sem uma rede apoio. Nem meus familiares e nem outras famílias acolhedoras estão podendo me auxiliar presencialmente neste momento. Apesar de estar se desenvolvendo bem, ela [bebê] acaba perdendo alguns estímulos importantes com a necessidade do isolamento, como teria em uma ida ao parquinho”, revela.

Renato conheceu o projeto em 2017, quando acolheu seu primeiro bebê. Após o desacolhimento, foi suporte para outra família acolhedora – colaborando com os cuidados de uma criança – e buscou o segundo acolhimento este ano. Com uma rotina de trabalho flexível, vem conseguindo conciliar as atividades como zootecnista em sua empresa voltada para o bem-estar de cães e os cuidados com a bebê.

“As pessoas perguntam se canso ou durmo mal, e sim, acontece. Mas não deixaria de fazer. Qualquer pessoa com um bebê está passando por isso. Não é algo que se limita ao contexto do acolhimento. É o quarto mês e tá dando certo”.

Apesar do cenário de isolamento, Renato continua em contato com outras famílias acolhedoras que o ajudam a tirar dúvidas. Além disso, semanalmente, eles se reúnem em um espaço virtual com membros do instituto para falar sobre como está sendo a experiência do acolhimento.

“Não tinha essa experiência com crianças antes do acolhimento. Nunca tinha trocado uma fralda. A bebê com quem estou agora nasceu prematura e chegou pra mim bem pequena, com pouco mais de um mês. Agora está um chumbinho, brincando e aprendendo”, conta.

Renato observa os benefícios do acolhimento nas crianças que recebeu. E apesar da ruptura ser difícil no momento em que a criança vai para a família adotiva ou retorna para a de origem, saber do impacto que teve no desenvolvimento delas o motiva a continuar no programa. “Não paro mais com este projeto. Os benefícios que as crianças podem receber pelo seu cuidado são enormes. Quando você percebe que dá conta disso, se pergunta: por que não fazer?”.

Neste período de isolamento, o Instituto Fazendo História registrou um aumento de famílias interessadas em se formarem para o programa de acolhimento. “É a primeira vez que conseguimos uma formação com 27 famílias inscritas. Não sei se vai ficar mais conhecido depois da pandemia, mas vem sendo importante para as crianças pequenas e com problemas de saúde. Na família acolhedora ficam mais protegidas”, comenta Lara Naddeo, psicóloga da instituição.

Fonte: Observatório do Terceiro Setor