Mortes de indígenas idosos por Covid-19 colocam em risco línguas e festas tradicionais que não podem ser resgatadas

Atualizado em 25/7/2020

São mais de 200 línguas indígenas faladas no Brasil, muitas em preservação pelos mais velhos. Guajajaras contam com festas para manter a tradição. Karipunas têm tatuagens históricas que podem se perder. No Rio Negro, um ilustrador da história local morre devido ao novo coronavírus.

A Covid-19 mata mais os idosos e são eles a fonte histórica dos indígenas brasileiros. Os antigos Guajajara, no Maranhão, cantam os rituais. Na aldeia dos karipuna, em Rondônia, Katica e Aripã têm as tatuagens tradicionais e mantêm a língua tupi-kawahib. Os anciãos, que ensinam os mais jovens, correm risco de morrer ou já foram perdidos para a doença.

Não há um balanço oficial de mortes indígenas por Covid-19 por idade. Sabe-se que são 187 mortes até quinta-feira (9/7), de acordo com a Secretaria de Saúde Indígena (Sesai) do Ministério da Saúde. Ou, como diz o levantamento da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), 453 mortos. Não há consenso também sobre o número geral de vítimas da doença.

Cada caso é divulgado, então, por quem vive perto das aldeias. Aloisio Cabalzar, antropólogo do Instituto Socioambiental (ISA) no Rio Negro, diz que a tradição das sociedades indígenas é basicamente oral. Em geral, são as pessoas mais velhas que passam o conhecimento para as mais jovens.

“Os idosos são o principal grupo de risco. É o que está acontecendo: estamos perdendo o conhecimento” – Aloisio Cabalzar, antropólogo

Cabalzar diz: “Tenório foi o principal líder do povo Tuyuka e por 20 anos foi educador da língua original aos mais novos”. Ele tinha muitas profissões: construtor de canoa, artesão, químico, professor, tradutor trilíngue e intercultural, gestor de organização indígena, pesquisador, especializado em petróglifos, escritor, produtor cultural.
“Ele buscou os filhos indígenas em outras escolas, ensinou a língua tuyuka. Garantiu muito material escrito, vários trabalhos publicados. Ele foi a principal liderança do processo de retomada da língua tuyuka”, disse o antropólogo.
No Maranhão, Sônia Guajajara, líder indígena e coordenadora da Apib, vê um processo parecido. Os idosos morrem e levam o que sabem, diz ela. A doença já chegou em territórios próximos a povos isolados: Parque Nacional Montanhas do Tumucumaque, no Amapá; terra indígena Momoadate, no Acre; Vale do Javari, no Amazonas.
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Mortes de indígenas por Covid-19 no Brasil — Foto: Arte/G1
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“Não sabemos se os isolados foram contaminados, uma vez que não podemos fazer contato com eles. Mas sabemos que existem invasores próximos e em povos que são vizinhos”, disse Guajajara.

“Há um grande risco de se perder línguas inteiras. Temos povos com poucos falantes. Temos povos que foram obrigados a falar a língua de outros povos e só os idosos que conseguem resgatar a identidade. Muitas pessoas são os últimos falantes. Uma ação etnocida”.

A líder indígena explica que especificamente entre os Guajajara “tem a festa da menina moça, festa da criança”, entre outros rituais. Eles falam o tupi-guarani e o canto é fortalecido pelos mais velhos. “Eles trabalham muito fortalecendo isso, dos mais velhos para os mais jovens. São os cantores que garantem que o ritual aconteça. Perder isso é um risco”.
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Ainda mais risco

Em outubro de 2019, o G1 foi a Rondônia contar a história o povo Karipuna. Eles têm poucos indivíduos na aldeia, menos de 30, e foi o território mais ameaçado por queimadas do Brasil no ano passado. Dois anciãos preservam e ensinam a língua tupi-kawahib no território.

Os filhos e netos se mobilizaram. Adriano Karipuna, um dos líderes, está em Porto Velho arrecadando dinheiro para álcool gel. Segundo ele, a produção de farinha, macaxeira e artesanato parou – os índios não podem sair para vender.

Então, se organizaram: antes de chegar na aldeia, existe “a casa de farinha” onde acontece a produção. O que é arrecadado é deixado lá, e os moradores vão até o local buscar e higienizar o que se pega. Se Adriano consegue, recolhe algum produto indígena e leva para a cidade.

“Está acabando tudo. Há 4 meses estamos com esse problema. Sem álcool gel, sem álcool 70, combustível para o gerador. Estou arrecadando coisas e levando para a aldeia, mas não fico por lá”, disse.

Os dois anciãos, Katica e Aripã, com mais de 70 anos, ficam isolados. Eles têm tatuagens do povo, tradição antiga, mas que os mais jovens não usam mais. Passaram a língua para os filhos, a tupi-kawahib.

“Inclusive Katica sofreu um AVC quatro meses atrás e logo em seguida veio a pandemia. Os hospitais estão lotados, e ela não pode sair da aldeia para não pegar Covid-19”, completou Adriano.

Fonte: Bem Estar/Globo