Covid-19: estudo mostra como 59 casos da doença foram associados a um voo de 7 horas para a Irlanda

Atualizado em 28/10/2020

Surto ‘demonstra potencial de disseminação do Sars-CoV-2 associado às viagens aéreas’, afirmam pesquisadores

Um voo internacional de sete horas e meia para a Irlanda, durante o verão, foi associado a um surto de 59 casos de Covid-19, de acordo com um estudo realizado pelo Departamento de Saúde Pública Irlandês. O artigo foi publicado no jornal científico “Eurosurveillance”.

A aeronave tinha apenas 17% de ocupação, com 49 passageiros, além de 12 tripulantes. Desse voo, 13 passageiros, com idade entre 1 e 65 anos, foram contaminados pelo coronavírus. Doze deles apresentaram sintomas. Nove usavam máscara, uma criança não usava, e a informação sobre os outros três é desconhecida.

Os passageiros voaram para a Europa a partir de três continentes diferentes. O artigo não detalha qual foi a companhia aérea ou de onde o voo saiu. O sequenciamento e análise do genoma de amostras referentes a cinco casos sugeriu fortemente uma única fonte de infecção, segundo a publicação.

De acordo com o estudo, não há informação sobre o caso de origem. No entanto, um passageiro relatou que uma pessoa de sua família havia testado positivo para a doença três semanas antes da viagem.

Uma equipe nacional de controle de surtos foi convocada para investigar, identificar e entrevistar os casos, além de supervisionar o rastreamento de contatos e estabelecer medidas de controle.

De acordo com a investigação, esses 13 passageiros transmitiram o vírus para outras 46 pessoas. “Este surto demonstra o potencial de disseminação do Sars-CoV-2 associado às viagens aéreas”, afirmam os autores.
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“É interessante notar que quatro dos casos de voo não estavam sentados ao lado de qualquer outro caso positivo, não tiveram contato na sala de trânsito, usaram máscaras faciais durante o voo e não seriam considerados contatos próximos sob a orientação atual do Centro Europeu de Prevenção de Doenças e Controle (ECDC)”, destacam.

O artigo recomenda que avisos de saúde e responsabilidade pessoal e verificações do estado e da companhia aérea sejam realizados para impedir a viagem de pessoas com sintomas. “Medidas rigorosas de prevenção e controle de infecções a bordo são vitais para reduzir o risco de transmissão sintomática e assintomática durante o voo. Restrição de movimento na chegada e rastreamento de contato robusto são essenciais para limitar a propagação pós-voo”, indicam os autores.
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‘Usar máscara é a medida essencial nos voos’

O virologista Paulo Eduardo Brandão, da Universidade de São Paulo (USP), destaca que as principais formas de transmissão do coronavírus são por gotículas que saem durante a tosse e a fala, por exemplo, e por aerossóis, que ficam suspensos no ar. O uso da máscara serve como forma de prevenção para ambas as possibilidades.

— Não há como garantir que nesse caso os passageiros não tiveram algum relaxamento. Ao tirar a máscara ao ir ao banheiro, ou para comer, por exemplo. O uso de máscaras é a principal medida essencial durante os voos — afirma Brandão, e acrescenta que o espaçamento entre os assentos também é importante.

Sylvia Lemos Hinrichsen, consultora em Biossegurança e Controle de Infecções e Riscos da Sociedade Brasileira de Infectologia, explica que, de modo geral, nas viagens por transportes aéreos a segurança vai depender do controle que os próprios passageiros vão ter durante o voo e principalmente nos aeroportos.

— É preciso seguir os pilares de lavar as mãos, higienizar o ambiente, usar as máscaras e manter distanciamento entre as pessoas, principalmente no lobby no aeroporto — afirma.

A infectologista, que também é professora da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) acrescenta ser recomendado buscar voos mais curtos.

— É difícil manter os quatro pilares de cuidados em voos mais longos. Será que os passageiros desse voo para a Irlanda ficaram sem circular, usando a máscara o tempo todo e higienizando as mãos? É difícil — avalia.

A infectologista Tania Chaves, membro da Sociedade Brasileira de Infectologia, destaca que o estudo mostrou uma alta taxa de ataque, ou seja, a capacidade de encontrar pessoas infectadas a partir de a partir de uma mesma exposição: de 9,8% a 17,8%.

— Uma taxa de ataque de quase 20% não é desprezível. É realmente um vírus altamente transmissível — afirma.

Ela avalia que o artigo serve como um alerta para a segurança do ambiente das aeronaves.

— Apesar de sabermos que o ar é renovado a cada 3 minutos e há uma filtração de ar reconhecidamente de alta segurança, ela não é absoluta. Por isso as viagens intercontinentais, principalmente as de longa duração, devem ser evitadas. Somente para situações essenciais — indica.
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Harvard: risco de Covid-19 no avião é ‘muito baixo’

Outro estudo, publicado por pesquisadores da Escola de Saúde Pública de Harvard nesta terça-feira, indicou que os riscos de transmissão da Covid-19 durante voos aéreos são muito baixos, inclusive menores do que o de outras atividades de rotina durante a pandemia, desde que sejam usadas máscaras e tomadas medidas de segurança.

De acordo com a agência de notícias Reuters, o relatório foi financiado pelo grupo comercial Airlines for America e um consórcio de fabricantes de aeronaves e operadoras de aeroportos. O estudo destaca que os aviões são equipados com sistemas de ventilação que renovam o ar da cabine em média a cada 2 ou 3 minutos e removem mais de 99% das partículas do tamanho das que causam a Covid-19.
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Por: Raphaela Ramos

Fonte: O Globo