Covid-19 e manifestações dermatológicas: o que sabemos sobre isso

Atualizado em 8/9/2020

Desde o surgimento dos primeiros relatos do COVID-19 em dezembro de 2019, em Wuhan, China, diversas pessoas ao redor do mundo modificaram seus hábitos de autocuidado e interação social. Costumes frequentes nos países do Oriente, anteriormente vistos com estranhamento por grande parcela, parecem ditar o que hoje chamamos de “novo normal”.

No Brasil, as transformações provocadas pela pandemia tornaram-se mais enérgicas em março de 2020, quando o número de casos se fez ainda mais expressivo e crescente. Até o momento em que escrevo esse texto, são 584,016 casos e 32.548 óbitos de brasileiros por COVID-19, segundo o Governo Federal. No momento em que você estiver lendo isso, muito provavelmente, os números já terão obtido um aumento considerável.

Apesar dos dados alarmantes, não existe ainda uma compreensão absoluta sobre o comportamento viral e a doença causada. Muito se fala sobre manifestações clínicas (febre, tosse seca, dispneia, hiposmia e disgeusia), sinais vitais (dessaturação e elevação de temperatura), alterações em exames de imagem e exames laboratoriais. Contudo, ainda são escassas as informações sobre as possíveis manifestações dermatológicas causadas pela doença.

Recentemente foi divulgado em redes sociais os principais achados dermatológicos ocorridos em 20% de pacientes infectados por coronavírus em um hospital da Itália, que auxiliam no raciocínio clínico e ectoscopia de casos suspeitos. São eles:

• Lesões tipo urticária: placas avermelhadas, em relevo e evanescentes, que aparecem e somem espontaneamente em diferentes regiões do corpo;

• Isquemia de extremidades: evidenciada por alterações na coloração da região afetada – hipocromia ou cianose;

• Lesões morbiliformes: também conhecida como “pele em lixa”, caracteriza-se pelo surgimento de pápulas eritematosas pelo corpo, comumente encontradas em arboviroses;

• Livedo reticular: denotada pelo aspecto rendilhado da pele, na presença de manchas avermelhadas em contraste com regiões de hipocromia, característico de isquemia de pequenos vasos;

• Vesículas: apresentam-se como pequenas bolhas de pus ou sangue;

• Petequias: pequenas manchas arroxeadas na pele que não desaparecem com vitropressão.

É valido ressaltar que nenhuma das apresentações citadas acima são específicas do COVID-19, mas figuram como achados auxiliares ao raciocínio diagnóstico quando associadas a outros sintomas relatados.

Além das manifestações dermatológicas que podem ser apresentadas por pacientes que testaram positivo para COVID-19, vale lembrar de outro cenário de interesse da dermatologia que também tem se apresentado com maior frequência ultimamente: as psicodermatoses e as alterações dermatológicas em profissionais da saúde causadas pela antissepsia intensificada e uso de EPIs.

Em maio de 2020,  o Jornal da Academia Americana de Dermatologia (JAAD),-  volume 82, número 5 – publicou um artigo sobre lesões na pele entre os profissionais de saúde que atuam no front de combate da COVID-19. Segundo o autor, danos cutâneos causados ​​por medidas intensificadas de prevenção de infecções tem-se tornando frequentes entre profissionais de saúde, o que poderia reduzir o entusiasmo pelo trabalho sobrecarregado e torná-lo ainda mais ansioso.

Para analisar a frequência com que os profissionais mencionados apresentaram a lesões dermatológicas ocupacionais, de janeiro a fevereiro de 2020, questionários on-line autoaplicáveis ​​foram distribuídos para 700 indivíduos, constituídos por médicos e enfermeiros que trabalhavam nos departamentos designados dos hospitais terciários de Hubei, China. O questionário incluía perguntas sobre o aspecto da lesão na pele e a frequência e/ou duração de várias medidas de prevenção de infecções.

Finalmente, 542 indivíduos completaram o estudo (taxa de resposta, 77,4%), com 71,4% (387 de 542) destes, trabalhando em enfermarias isoladas e 28,6% (155 de 542) trabalhando em clínicas de febre.

A taxa geral de prevalência de danos à pele causados ​​por medidas aprimoradas de prevenção de infecções foram de 97,0% (526 de 542) entre os profissionais de saúde que estão no front de trabalho.

As principais áreas afetados incluíram a ponte nasal, mãos, região malar e testa, sendo a ponte nasal a mais acometida (83,1%). Entre os sintomas e sinais descritos, ressecamento / aperto e descamação foram os sintomas mais comuns (70,3%) e sinais (62,2%), respectivamente, como mostra a tabela abaixo.
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Além dos dados mostrados na tabela anterior, foi observado que os profissionais de saúde que usaram algum Equipamento de Proteção Individual (EPI: máscaras N95, óculos de proteção) por mais de 06 horas apresentaram maiores riscos de danos à pele nos locais correspondentes do que aqueles que fizeram por menos tempo, enquanto um tempo maior de uso de máscara facial não era fator de risco significativo para causar danos na pele da testa.

A higiene das mãos mais frequente (10 vezes ao dia) sugeriu um incremento no risco de lesões na pele das mãos, em vez de um tempo mais longo de uso de luvas

Os números descritos alertam para os riscos de lesões dermatológicas advindas do aumento dos hábitos de proteção/prevenção de infecções no campo da saúde.

O objetivo desse texto é contribuir para o autocuidado e a capacidade diagnóstica dos profissionais de saúde que estão atuando no combate ao COVID-19, apresentando manifestações dermatológicas que, mesmo que inespecíficas à doença, podem orientar o pensamento clínico. O desenvolvimento de um raciocínio clínico atento e a avaliação global de um paciente, serão sempre as maiores ferramentas de trabalho de um profissional da saúde.

Autor: Artur Menezes Oliveira
Fonte: Sanar Medicina