Como se livrar do novo coronavírus que fica no ar em ambientes fechados

Atualizado em 11/11/2020

Decorridos muitos meses desde o início da pandemia tenta-se, por todo o mundo, de forma organizada ou atabalhoada, uma retomada das atividades sociais que foram desestimuladas ou suspensas durante os períodos de confinamento e outras medidas que foram tomadas para se reduzir a transmissão do novo coronavírus (SARS-CoV-2) e diminuir o número de hospitalizações e mortes pela COVID-19. Em várias partes do mundo bares e restaurantes estão sendo reabertos, e estudantes estão voltando a ter aulas presenciais. Sabe-se que o SARS-Cov-2 se transmite principalmente por gotículas eliminadas durante a tosse, espirros ou quando os portadores do vírus cantam, gritam ou falam, e também aceita-se que a transmissão possa se dar por aerossóis. Por esse motivo há o risco de transmissão aérea mesmo mantendo-se o distanciamento social de dois metros, e esse risco é maior em espaços públicos fechados, justo onde as pessoas estão voltando a circular. Brian Resnick, em matéria publicada no website Vox, discute, com base em diversas entrevistas com engenheiros e especialistas em qualidade do ar, o que se pode fazer para minimizar, tanto o quanto possível, a transmissão do novo coronavírus dentro desses espaços fechados [1].

É consenso que para que esses espaços públicos fechados sejam mais seguros é necessário que eles sejam bem ventilados. Mas, como escreve Resnick, ventilação é um conceito simples cuja execução prática é muito complexa no caso de muitos edifícios. Como notou uma das entrevistadas, não se vê anúncios de reabertura de restaurantes chamando atenção para uma melhora de seu sistema de ventilação. A ênfase sempre se dá na limpeza de superfícies, quando se sabe que o contato com superfícies contaminadas não é uma forma importante de transmissão do novo coronavírus.

Resnick se propõe a guiar seus leitores sobre como chegar a um ar ambiente interior seguro, o tanto quanto isso for possível, já que há várias pedras pelo caminho. Ele divide o assunto em controle da fonte do vírus, mistura do ar do exterior com o ar do interior em espaços fechados, e dispositivos para filtração e limpeza.

Pode-se pensar que oferecer um ar “limpo” no interior de um edifício seria análogo à limpeza de uma superfície com um desinfetante ou com o uso de água e sabão. Embora isso possa parecer intuitivo, uma coisa não tem nada a ver com a outra. Não se pode tentar limpar o ar borrifando-se nele uma substância química, pois acabaremos respirando essa substância, que se é tóxica para o vírus também pode ser tóxica para quem a inala. A abordagem tem que ser outra.

A primeira coisa a se pensar em fazer é limitar a fonte do contágio, ou seja, as pessoas infectadas. Como diz um dos especialistas entrevistados, se você está num lugar que está com cheiro forte de esterco, a melhor solução não é ventilar o local para que o cheiro desapareça, é se livrar do esterco. Pode-se diminuir a probabilidade de transmissão do SARS-CoV-2 se menos pessoas se expuserem a ele. Isso pode se conseguir restringindo o número de pessoas presentes ao mesmo tempo em ambientes fechados, e evitando que, se uma delas estiver com o vírus, o transmita por não usar máscara ou por gritar ou falar alto.

Além de diminuir a fonte do vírus, deve-se procurar reduzir a quantidade de vírus contida no ar, o que se consegue pela ventilação do espaço, ou seja, pelo aumento da troca do ar interior pelo ar que vem de fora. Idealmente a renovação deve ser de cerca de seis vezes por hora, que parece ser uma orientação segura e talvez até excessivamente cautelosa pois essa cifra vem de estudos sobre a transmissão da tuberculose, que é uma doença muito mais contagiosa do que a COVID-19. A forma mais simples de se aumentar a ventilação é abrir as janelas, o que aumenta a entrada de ar de fora (que não deve ter o vírus) e dilui o ar interior (que pode ter o vírus). Mas não se pode dizer que aumentar a ventilação vá necessariamente funcionar. Resnick cita o exemplo de um sistema de ventilação num restaurante, que aparentemente serviu para “soprar o vírus na cara” de alguns clientes, que supostamente foram desta forma infectados pelo SARS-CoV-2, numa demonstração de que o fluxo do ar decorrente da ventilação daquele local pode ter tido efeito contrário ao desejado.

Como determinar, por exemplo, se uma sala de aula está sendo bem ventilada? Na prática, o mais simples seria o uso de um detector de gás carbônico (CO2) – segundo o autor, ao custo de cerca de 100 dólares americanos –, que pode fazer uma estimativa algo grosseira da qualidade do ar. Níveis elevados ou em elevação de CO2 em um determinado espaço, como na sala de aula do exemplo, são um sinal de que ele não está sendo propriamente ventilado para o número de pessoas que lá estão. Já na ausência de tal detector, por exemplo quando se vai a um restaurante, não se deve menosprezar o bom senso. Se o local está abafado, com as janelas fechadas, e com cheiro de mofo, pode ser uma ideia mais prudente procurar outro estabelecimento.

Em alguns prédios comerciais pode ser feito ajuste da quantidade de ar fresco injetado no sistema de ventilação. Na prática, esse ajuste não se costuma fazer com 100 por cento de ar externo, porque o consumo de energia seria grande, e também quando se necessita aquecer o ar, como nos dias frios, há um limite de quanto ar externo se pode misturar para renovar o ar interior.

Não se deve ignorar que os sistemas de ventilação disponíveis, particularmente em escolas, podem ser antigos e estar com defeito. Exemplos fornecidos na matéria são de que cerca de 40 por cento das escolas avaliadas, todas nos Estados Unidos, tinham algum tipo de problema em seus sistemas de ventilação. E não é fácil de resolver esses problemas porque diferentes edifícios, construídos em diferentes épocas para diferentes fins podem requerer soluções distintas. E por vezes o problema não está no prédio como um todo, mas apenas numa parte dele, ou mesmo só numa sala específica.

Uma solução também intuitiva, mas de implementação complexa é o uso de filtros. Bons filtros, segundo a Sociedade Americana de Engenheiros em Aquecimento, Refrigeração e Ar Condicionado, são os que têm a designação MERV-13 ou mais alta, que indica uma capacidade adequada de filtração de partículas. Pode também ser usado um filtro HEPA portátil, a designação HEPA significando que eles filtram pelo menos 99,97 por cento das partículas que medem 0,3 µm, em outras palavras, quase tudo. Mas para se poder usar tais filtros é preciso verificar se os sistemas de ventilação os comportam. E há ainda outra coisa: os filtros de ar devem estar em uso contínuo – ou seja, o ar deve estar passando continuamente por eles – para funcionar de forma adequada. Na prática, nas residências e em alguns estabelecimentos comerciais os sistemas de climatização só são colocados em funcionamento quando os usuários têm a percepção de que eles são necessários.

Por fim, ao invés de tentar remover os vírus do ar pode-se tentar eliminá-los com raios ultravioleta emitidos por lâmpadas. O especialista entrevistado na matéria não recomenda esses dispositivos para o consumidor médio, pois embora a radiação ultravioleta seja efetiva e existam lâmpadas de boa qualidade, ele diz haver no mercado uma quantidade enorme de produtos que não funcionam. O conselho é que, em se optando pela instalação dessas lâmpadas, ela deve ser deixada ao cuidado de engenheiros e empresas de boa reputação.

Referência

  1. Resnick B. Coronavirus is in the air: here’s how to get it out. Vox, 19 de agosto, de 2020, atualizado em 28 de setembro de 2020. (Disponível em https://www.vox.com/science-and-health/2020/8/19/21364031/coronavirus-air-purifiers-filter-hepa-merv-ventilation).
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Por: Sérgio de Andrade Nishioka – Médico infectologista e Doutor em Epidemiologia

Fonte: Sistema Universidade Aberta do SUS (UNA-SUS)