As vacinas contra a covid-19 aprovadas no Brasil oferecem riscos? Ainda terei de usar a máscara?

Atualizado em 22/1/2021

O Brasil deu a largada para a vacinação em massa contra o novo coronavírus após autorizar, no último domingo, o uso emergencial de duas vacinas contra a covid-19: a Coronanavac, desenvolvida pelo laboratório chinês Sinovac em parceria no país com o Instituto Butantan; e a Astrazeneca/Oxford, tutelada no Brasil pela Fiocruz. São os únicos imunizantes que podem fazer o uso emergencial no Brasil, por enquanto. Com seis milhões de doses da Coronavac, o país inicia a partir de agora a imunização de grupos prioritários, como os trabalhadores da saúde, idosos residentes em instituições de longa permanência e indígenas. As vacinas contra a covid-19 ―desenvolvidas em tempo recorde― ainda são pano de fundo para uma verdadeira batalha política não só no Brasil, com uma disputa de narrativas repleta de desinformação. O EL PAÍS esclarece abaixo as principais dúvidas sobre os imunizantes já autorizados no país.
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Como funcionam as vacinas da Coronavac e a Astrazeneca?

A Coronavac contém o vírus inativado. O microbiologista Luiz Gustavo Almeida, PhD em Microbiologia e coordenador dos projetos educacionais do Instituto Questão de Ciência, explica a tecnologia empregada foi uma das primeiras utilizadas na produção de vacinas e é extremamente segura. O vírus Sars-Cov-2 é cultivado em laboratório e depois seu DNA é inativado por uma substância química ou física. A vacina contém apenas a estrutura do vírus, que faz com que o sistema imunológico crie uma memória de resistência, prevenindo infecções reais no futuro.

No caso da Astrazeneca, a tecnologia aplicada foi a do DNA recombinante. Almeida explica que os pesquisadores modificaram a estrutura de um vírus que não pode causar a covid-19 para que seja produzida a proteína Spike, responsável pela aderência do Sars-Cov-2 às células sadias. Ao entrar em contato com essa proteína, o organismo cria uma resposta imunológica eficiente para que quando haja uma infecção pela covid-19 esta seja atenuada rapidamente pelos anticorpos.
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Posso contrair o coronavírus ao tomar as vacinas contra a covid-19?

Não. As vacinas não causam a doença, nem infectam o organismo. “A vacina treina o organismo, um tipo de ensaio para os anticorpos”, esclarece o microbiologista.
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As vacinas continuam sendo eficazes diante das novas mutações identificadas? Se o vírus tem mutações, a vacinação terá que ocorrer todos os anos?

Ainda é cedo para afirmar sobre a necessidade da vacinação periódica contra a covid-19, a exemplo do que ocorre com outras doenças, como a gripe, cuja campanha de vacinação ocorre anualmente. Isso porque, conforme explica o médico e pesquisador da USP Marcio Sommer Bittencourt, não houve tempo hábil para observar quanto tempo dura a imunização gerada pela vacina. Bittencourt também afirma que ainda não há estudos contundentes sobre a falibilidade dos imunizantes diante das novas cepas identificadas ao redor do mundo. Para o médico, ainda é cedo para dar qualquer veredicto, já que no caso das mutações, elas podem ocorrer em qualquer parte do vírus e não necessariamente invalidam o princípio ativo da vacina.

Jorge Kalil, diretor do laboratório de imunologia do InCor e professor de medicina da USP, complementa explicando que apesar do grande número de mutações observadas, até o momento não houve o registro de modificações em partes importantes da defesa imunológica contra o vírus, o que indica que as vacinas já desenvolvidas são sim eficientes.
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Gestantes podem tomar a vacina? Há uma idade mínima para a imunização?

O médico e pesquisador da USP Marcio Sommer Bittencourt afirma que ainda não foram realizados testes específicos com as vacinas em crianças e em gestantes―embora este último seja um grupo mais propenso a desenvolver complicações causadas pela covid-19. Por isso, no Brasil, gestantes e crianças ainda não serão imunizados num primeiro momento. No entanto, o médico destaca que com a imunização em massa dos demais grupos populacionais reduz enormemente as chances de contágio na população, o que acaba protegendo os demais de uma eventual transmissão.
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Posso deixar de usar a máscara após tomar a vacina?

Não. Será necessário continuar a usar máscaras de proteção. O pesquisador da USP explica que a vacina não evita completamente a transmissão e o contágio pela covid-19. Inicialmente nem todos estarão vacinados, de modo que as medidas de controle e distanciamento social continuarão válidas, protegendo aqueles que não receberão o imunizante, como as grávidas e os menores de idade. O benefício do imunizante está no fato de que ele protege o organismo contra o desenvolvimento de quadros mais graves da doença.
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A vacina pode causar a morte em quem receber o imunizante?

Não. O professor de medicina da USP Jorge Kalil, diretor do laboratório de imunologia do InCor, é enfático ao afirmar que a vacina contra a covid-19 não pode gerar a morte pela doença. O médico destaca que nenhuma das vacinas autorizadas pode causar a infecção e explica que o imunizante gera uma resposta imunológica do organismo ao promover uma simulação da exposição do organismo ao vírus. Tanto a Coronavac quanto a Astrazeneca/Oxford geram imunidade à doença, sem o risco de produzir um quadro grave ou até mesmo o óbito dos vacinados.
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Há alguma restrição para tomar a vacina? Precisarei informar se tenho alguma alergia ou doença prévia antes de tomar?

O Ministério da Saúde afirma que aqueles que usam medicamentos antiagregantes plaquetários e anticoagulantes orais, pacientes portadores de doenças reumáticas, pessoas que têm câncer, que foram submetidas a transplantes ou que tenham problemas sérios de imunidade devem tomar precauções e, em alguns casos, a vacinação só deverá ocorrer mediante prescrição médica. O plano nacional de vacinação recomenda que o profissional da saúde que irá aplicar o imunizante pergunte sobre quadro de alergias prévios, mas não especifica quais as alergias ou se pessoas com histórico alérgico prévio estão impedidas de tomar os imunizantes Coronavac e Astrazeneca/Oxford ―diferentemente da vacina da Pfizer, desenvolvida com outra tecnologia, que fez com que o Reino Unido impusesse restrições.

De qualquer forma, quando chegar a sua vez de tomar a vacina, é preciso informar a equipe médica local responsável pela imunização se você se enquadra em algum destes casos.
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O que é a eficácia de uma vacina?

A eficácia de um imunizante está atrelada à sua assertividade na redução de casos. O professor Jorge Kalil explica que a taxa de eficácia global ―a capacidade de redução de riscos de contrair a doença se receber a vacina em relação ao grupo que tomou placebo― está relacionada aos chamados desfechos primários, isto é, a capacidade, ou não, de a vacina prevenir o desenvolvimento da doença (aparecimento de sintomas e testar positivo).

Não. No caso da eficácia de 50,38% divulgada pela Coronavac, o médico Marcio Sommer Bittencourt afirma que o dado atende aos padrões exigidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e as agências reguladoras internacionais, já que com a vacina, pelo menos metade das pessoas expostas ao vírus não desenvolverão o quadro da doença.
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Faz sentido esperar uma vacina com uma eficácia maior?

O pesquisador da USP destaca que a vacinação é tão importante quanto à vacina, de modo que atrasar a imunização da população para esperar um imunizante com uma maior eficácia é contraproducente. A eficácia menor significa que para ter uma certa proteção, um numero maior de pessoas precisará ser vacinado. Isso não muda a segurança da vacina nem o fato de que a vacina diminuir a morbidade e a mortalidade da doença, e consequentemente, desafogar o sistema de saúde.
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Por que não é recomendável comparar as eficácias entre as vacinas?

A escassez de dados e os custos dos exames para identificar os vírus fizeram com que as farmacêuticas e institutos desenvolvedores das vacinas tivessem que definir critérios variados para decidir quais voluntários seriam considerados casos suspeitos de covid-19 ou não. A sobreposição de critérios entre as diferentes vacinas pode, portanto, afetar os números de eficácia de cada uma, prejudicando, assim, eventuais comparações entre os imunizantes.

‘”Os números totais dos estudos da vacina Oxford e da vacina do Instituto Butantan, ambas importantes para imunizar no Brasil, são muito semelhantes. Uma diferença importante dos dois estudos, além da tecnologia vacinal, e dos sintomas usados para classificar casos, foi que a Oxford foi testada na população geral, e a do Instituto Butantan em profissionais de saúde atendendo pacientes de covid-19. A taxa de incidência de casos da doença no grupo placebo do Instituto Butantan é praticamente o dobro do que se observa no grupo placebo da vacina Oxford, sendo que o número total de casos graves, nos dois estudos, também foi comparável’, esclarece a Sociedade Brasileira de Imunologia em nota oficial.
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Houve tempo hábil para concluir as pesquisas? O que significa dizer que a vacina é experimental?

O microbiologista Luiz Gustavo Almeida explica que o desenvolvimento rápido das vacinas ocorreu por uma conjunção de três fatores: histórico de pesquisas, investimentos e colaboração internacional entre cientistas e pesquisadores. Além disso, algumas das tecnologias empregadas, como é o caso da Coronavac já são estudadas há mais de 30 anos e são utilizados nas mais diversas vacinas. Almeida também destaca que algumas farmacêuticas já vinham desenvolvendo estudos com os coronavírus MERS e SARS-COV-1, o que proporcionou uma base mais ampla para os pesquisadores no desenvolvimento do imunizante contra o Sars-cov-2.

Chamar uma vacina de experimental é apenas uma questão de nomenclatura e prazo, conforme explica o médico Marcio Sommer Bittencourt. O processo para o desenvolvimento de um imunizante é, em geral, de 2 anos, para observar eventuais reações que possam ocorrer nesse intervalo de tempo. No entanto, isso não quer dizer que a vacina é insegura, mas tão somente quanto tempo durará a imunidade gerada pela vacina ou quantas doses serão necessárias, por exemplo.
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Fonte: El País