Prevenção da Covid é desafio nas favelas

Atualizado em 23/3/2021

“Sinto solidão. Não aguento mais ficar sozinha. Acho que a solução, depois de Deus, é só mesmo a vacina para todo mundo”. Desempregada e isolada desde o início da pandemia, a auxiliar de limpeza Geralda Maria, 62, não vê a hora de a vacinação contra a Covid-19 chegar para todos do aglomerado Alto Vera Cruz, na região Leste de Belo Horizonte, onde ela vive.

Sem ver os pais e os filhos, Geralda já até sabe o que fazer quando esse momento chegar. “Quero abraçar, mas não é uma tela de computador. Quero abraçar o corpo. Para mim, só adianta se todo mundo vacinar, vou ter paz só desse jeito”, diz.

Assim como Geralda, três em cada quatro moradores de aglomerados querem se imunizar contra o coronavírus. No entanto, de acordo com pesquisa do Instituto Data Favela publicada em fevereiro, 92% não sabem quando poderão se vacinar. A incerteza tem explicação. Segundo o estudo, 58% não têm total certeza da eficácia do imunizante diante das novas variantes que circulam no país.

E, para piorar, ao menos 46% dos moradores de favelas do país admitem ter recebido fake news referentes à vacinação. “A gente percebe que, dentro do território de favelas, uma grande parte da população tem algum receio da vacina, seja por não ter uma compreensão, seja porque é uma novidade para todo mundo”, afirma o presidente da Central Única das Favelas (Cufa) Minas Gerais, Francis Santos.

Desafio

Conforme a pesquisa do Data Favela, 32% das pessoas que vivem em aglomerados tentam seguir as medidas de prevenção contra o novo coronavírus, mas manter o isolamento social vira um desafio nas comunidades. “É um território totalmente denso, com concentração de pessoas muito grande. São famílias numerosas, casas onde dormem seis pessoas no mesmo cômodo. E tem uma questão cultural de que as pessoas estão acostumadas a conviver mais, estar mais na rua”, diz Santos.

Guilhermina Abreu, do Movimento Unindo Forças BH, acrescenta: “Como quem não tem o que comer vai se preocupar em comprar máscara e ter álcool em gel? As pessoas falam muito sobre o futuro e a vacina. Temos que fazer algo pelas pessoas agora. O pobre que vive em aglomerado está passando fome. A pandemia só aflorou os problemas sociais que já existiam”, avalia.
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Sociólogo critica falta de política pública 

Sem uma política pública efetiva de combate à pandemia, a tendência é que a situação piore nos aglomerados. A avaliação é do professor de sociologia Jorge Alexandre, da UFMG. “A fome só tende a piorar no Brasil, junto com a evasão escolar. Tem que ter medidas públicas integradas e eficientes, que valorizem a saúde, o social, a educação e a geração de renda”, disse.

Segundo ele, as soluções precisam ser imediatas. “É necessário o retorno do auxílio emergencial em valores maiores. A inflação não permite que as pessoas vivam com o mínimo de decência, recebendo um auxílio de um valor menor. Elas têm que ser ajudadas com ações eficientes de combate à fome e geração de renda”.

Moradora do Morro do Papagaio, na região Centro-Sul de BH, desde quando nasceu, Gisele Heralda da Silva, 57, faz de tudo para seguir as medidas de isolamento e aguarda ansiosamente para ser vacinada. “Aqui, usamos álcool em gel, seguimos as regras direitinho. Eu sou a favor da vacina, já queria ter tomado. Estou esperando o meu momento”, finalizou.
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Fonte: O Tempo