Covid-19: uma abordagem ampla sobre as infecções causadas pelo SARS-CoV-2

Atualizado em 3/7/2020

O conteúdo a seguir é uma abordagem sobre a Covid-19 e as infecções causadas pelo novo coronavírus. O conteúdo foi produzido pela Liga Amapaense de Pneumologia (LAP), através de uma parceria entre a SANAR e a ABLAM com as ligas acadêmicas parceiras das duas instituições.

Dentro dessa proposta, nós vamos abordar os seguintes temas relacionados a covid-19: a epidemiologia, fisiopatologia, manifestações clínicas, o diagnóstico, o tratamento, as medidas de suporte e o tão importante isolamento social.

Epidemiologia da Covid-19

Acerca do coronavírus, ele representa uma grande família composta por vírus que são conhecidos por causarem doenças relacionadas às síndromes respiratórias, podendo se manifestar desde a forma de um resfriado até doenças mais graves.

O Covid-19 é a doença clínica causada pelo SARS-COV-2, um vírus de RNA, responsável pela atual pandemia. É válido ressaltar que, em períodos anteriores, outros vírus dessa mesma família foram responsáveis por importantes surtos de síndromes respiratórias, como em 2002, sars-cov e, em 2012, causada pelo mers-cov.

O surto teve seu início em dezembro de 2019, em Wuhan, Província de Hubei, China, quando um grupo de pacientes inicialmente diagnosticados com pneumonia de etiologia desconhecida, foram internados e logo após tiveram o quadro vinculado a um mercado de frutos do mar e animais úmidos.

A doença demonstrou ter alta transmissibilidade, isso porque, em janeiro de 2020, 7.734 casos foram confirmados na China e 90 outros casos também foram relatados em vários outros países como Japão, Estados Unidos e Alemanha. Nesse período, os principais acometidos eram homens entre a idade de 41 a 58 anos.

De acordo com o relatório situacional do dia 17 de abril de 2020, publicado pela OMS, em parâmetro mundial o número de casos ultrapassava 2 milhões, havendo mais de 139 mil óbitos. E no Brasil, o número de contaminados atinge a marca de 28.320 indivíduos e 1.736 óbitos.

Foram identificados alguns fatores que contribuem com um pior prognóstico da doença, entre eles estão: idosos, principalmente os com idade superior a 65 anos; portadores de doenças pulmonares crônicas, como doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), asma e outras pneumopatias estruturais; pacientes com hipertensão arterial sistólica, pacientes com diabetes insulinodependentes; pessoas com obesidade, insuficiência renal, pacientes imunossuprimidos e ainda gestantes, nesse último caso ainda não sendo de conhecimento se há comprometimento ao desenvolvimento do feto, como ocorre em outras doenças virais, a exemplo da causada pelo zika vírus.
.

Fisiopatologia da Covid-19

Como os demais vírus, o coronavírus também necessita de uma célula viva para replicar seu material genético, ele usa suas espículas como uma chave para entrar nas células. Uma vantagem desse vírus é que ele não precisa adentrar o núcleo, pois possuem acesso direto aos ribossomos e fazem com que eles produzam as proteínas necessárias para a sua replicação.

São propostos dois processos patológicos distintos, mas que se interrelacionam para o COVID-19: o primeiro seria desencadeado pelo próprio vírus e o segundo pela a resposta do hospedeiro.

A replicação viral condicionaria o efeito citopático direto, assim como a ativação da resposta imune inata. O SARS-CoV-2 se ligaria ao receptor da enzima conversora de angiotensina 2, que se localiza, principalmente, nas células alveolares do tipo II, no intestino delgado e no endotélio vascular. No caso do sistema respiratório, seria causada uma lesão alveolar difusa por lesão citopática direta;

Outro fenômeno que ocorreria, seria uma resposta inflamatória desregulada do hospedeiro, a qual predomina nos estágios tardios da doença.


A junção desses dois processos produz uma evolução da doença em 3 estadios. Nessa evolução da doença, o estágio I seria a fase precoce. Nele aconteceria a replicação viral e seria caracterizado por estabilidade clínica e sintomas leves (tosse, febre, astenia, cefaleia, mialgias) e associado à linfopenia, à elevação dos d-dímeros e da lactato desidrogenase.

O evento iria causar lesão tecidual, piorando o quadro respiratório além de diminuir, ainda mais, a quantidade de linfócitos e elevar a PCR e a quantidade de transaminases. Devido a essa mudança dentro da fase pulmonar, podemos dividi-las em duas subetapas: IIa e IIb. Pelo fato de a IIa ainda marcar o início do processo inflamatório, ainda não haveria o comprometimento pulmonar. Sendo assim, não haveria a hipóxia. Por outro lado, a subetapa IIb já apresentaria uma resposta inflamatória significativa e isso iria piorar a função respiratória ao diminuir a oferta de oxigênio.

O último estágio seria caracterizado pela fase hiperinflamatória, nesse momento a resposta imune estaria extremamente desregulada. Isso iria gerar um aumento extremo das citocinas, provocando um envolvimento de vários órgãos, além de agravar ainda mais a função dos pulmões.
.

Manifestação clínica da Covid-19

O quadro clínico do paciente com COVID-19 costuma ter uma apresentação variável. Pode ser leve ou assintomática, principalmente em grupos de menos idade, como crianças e jovens adultos, até quadros mais graves, incluindo choque séptico e falência respiratória.

Nas manifestações clínicas da doença, os sintomas leves costumam predominar, tosse, febre maior ou igual a 37,8°C, fadiga acompanhada de mialgia são os sintomas mais comuns no início da doença. Já os sintomas respiratórios superiores, como congestão nasal, e os gástricos, como náusea, vômitos e diarreia, além de cefaleia podem surgir inicialmente, mas em menor frequência.

É importante lembrar que idosos e pacientes imunossuprimidos podem apresentar quadro clínico atípico, não apresentando sinais de desidratação, febre ou ainda dificuldade para respirar.

Além da síndrome gripal comum, o COVID-19 pode doença apresentar complicações na forma de síndromes clínicas. No caso da pneumonia, as crianças poderão apresentar ou não sinais de gravidade. Na ausência desses sinais, ocorrerá somente a tosse ou dificuldade respiratória, mais taquipneia.

Já nos casos de pneumonia com sinais de gravidade, apresentação se dará por meio de sintomas como: tosse e dispneia progressiva, acompanhada de cianose central e síndrome da angústia respiratória, letargia ou convulsões.

É conhecido que comumente as crianças são assintomáticas para o COVID-19, contudo casos graves foram relatados.

A pneumonia considerada grave em jovens e adultos costuma ser parecida com a da infância. O paciente apresentará febre, sintomas respiratórios, fadiga com frequência respiratória maior que 30 irpm, síndrome da angústia respiratória aguda (SARA), cianose e saturação menor que 93% e disfunção orgânica.
.

Diagnóstico da Covid-19

Acerca do diagnóstico de COVID-19, ainda não há um consenso quanto aos critérios de avaliação por parte dos especialistas. Porém, os dados epidemiológicos, clínicos e também exames complementares auxiliam a avaliação.

A anamnese é importante para saber se os sinais e sintomas se enquadram na clínica da doença e se houve exposição como viagens ou possível contato com doentes.

Nos exames laboratoriais se incluem o PCR-COVID- 19, que é a coleta de swab nasofaríngeo bilateral mais o swab de orofaringe ou 2 amostras de lavado broncoalveolar.

Outros exames que ajudam, mas são inespecíficos são: hemograma com linfopenia, bioquímica com eletrólitos, gasometria, CPK, DHL, PCR e a realização de hemocultura nos casos de evolução para sepse ou choque séptico.

Quanto aos exames de imagem, utilizam-se comumente o raio-x de tórax em casos leves e a tomografia computadorizada de tórax em casos graves ou que apresentam doença pulmonar estrutural, sendo observado nesses casos o padrão em vidro fosco, como representado bilateralmente na imagem pelas áreas ofuscadas, além da possibilidade de ver a trama vascular.
.

Tratamento

No tratamento do COVID-19 são utilizadas medidas farmacológicas e não-farmacológicas, e a conduta depende da gravidade do quadro do paciente.

As medidas farmacológicas incluem controlar os sintomas e prevenir possíveis complicações. Em casos sindrômicos leves, o manejo com fármacos requer a prescrição de antitérmicos por via oral:

1ª opção: Paracetamol, na apresentação de 200 mg/ml ou 500 mg/cp, utilizado a cada 4 horas ou a cada 6 horas a depender da frequência de febre ou da dor.

2ª opção: Dipirona, na apresentação de solução gotas com 500 mg/ml ou 500 mg/cp.

Nos casos em que houver a possibilidade do quadro estar sendo causado por outro vírus, ou ainda, que o paciente apresente fatores de risco para um pior prognóstico, é indicado o uso de Oseltamivir, devendo ser iniciado em até 48 após o surgimento dos sintomas.

Para crianças, a sua dosagem é variável e dependerá do peso e da idade, podendo variar de 3 mg até 30 mg. Já em adultos, será utilizado 75 mg. Ambos na frequência de 12 em 12 horas no período de 5 dias.

No manejo do COVID-19, as medidas clínicas exercem tanto a função de preservar o paciente, quanto a de evitar a propagação viral. Dentro desse contexto, são indicados:

Isolamento domiciliar por 14 dias a contar da data de início dos sintomas;
Realizar a revisão do paciente a cada 48 horas, preferencialmente por telefone, realizando atendimento presencial apenas se necessário;
Manter repouso, alimentação balanceada e boa oferta de líquidos para prevenir a desidratação;
Isolamento de contatos domiciliares por 14 dias com fundamental importância.
Isolamento social: prevenção comunitária

Por fim, levando em consideração a transmissibilidade do SARS-COV-2, é essencial para conter a pandemia e evitar o surgimento de novos casos, medidas de isolamento social, tanto para indivíduos com qualquer sintoma respiratório, ainda que na ausência de febre, como para os saudáveis a fim de evitar o contato com o vírus.

Com essa finalidade, o Ministério da Saúde de acordo com a diretrizes mundiais sobre medidas de prevenção, recomenda:

  • Realizar lavagem frequente das mãos com água e sabão ou álcool em gel;
  • Utilizar lenço descartável para higiene nasal;
  • Cobrir nariz e boca quando espirrar ou tossir;
  • Evitar tocar mucosas de olhos, nariz e boca;
  • Sempre higienizar as mãos após tossir ou espirrar;
  • Não compartilhar objetos de uso pessoal, como talheres, pratos, copos ou garrafas;
  • Manter os ambientes bem ventilados, e;
  • Evitar contato com pessoas que apresentem sinais ou sintomas da doença.
    .

Liga Amapaense De Pneumologia – LAP

Idealizadores da aula:
Alessandro Gonçalves Bezerra
Camila Lins Bilby Baima
Leonardo de Paula Ramos
Tadeu Banha Lopes Freire
Yngrid Sheron Ribeiro de Souza

Fonte: Sanar Med